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Marcos Cavalcanti (Coppe-UFRJ)

Sociedade do Conhecimento - 23/01/2009

Marcos Cavalcanti é professor adjunto do Programa de Engenharia de Produção da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), na área de Gestão e Inovação. Doutor em Informática pela Université de Paris XI, atua na coordenação da pós-graduação em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial, MBKM, do Centro de Referência em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento (Crie/Coppe/UFRJ) e é editor da revista Inteligência Empresarial. Seu blog é uma referência útil para todos que quiserem conhecer melhor seu pensamento sobre a Sociedade do Conhecimento na qual vivemos hoje.

Prof. Dr. Marcos Cavalcanti (Crie/Coppe/UFRJ)

 


JOSÉ PAULO DE ARAÚJO: Professor, o que é a Sociedade do Conhecimento de que tanto se fala atualmente? As Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTICs) têm alguma relação com ela?

MARCOS CAVALCANTI: Falamos da sociedade do conhecimento para marcar a transformação que estamos vivendo, de uma sociedade industrial para uma sociedade na qual o conhecimento se transformou no principal ‘fator de produção’. Já vivemos num mundo onde o principal fator de produção era a TERRA (sociedade agrícola, feudal). Há mais de dois séculos vivemos a transição da sociedade agrícola, feudal, aristocrática, para a sociedade industrial, na qual capital, trabalho, energia e matéria-prima eram os principais fatores de produção. Hoje, vivemos num mundo onde 55% da riqueza que é criada vêm do conhecimento e não mais da terra, do capital, da mão de obra, da energia e da matéria-prima, como anteriormente. As TICs contribuem para este processo, ao mesmo tempo em que são consequência dele. Da mesma forma que o trem e a energia elétrica aceleraram (e foram consequência) da revolução industrial.


JP: A Sociedade do Conhecimento suplanta as formas de produção já existentes, baseadas na terra, no capital e no trabalho?

MC: Com certeza! O que acontece é semelhante ao que aconteceu na transição da sociedade agrícola para a sociedade industrial. Poucas pessoas que viveram nessa época de transição compreendiam o que estava ocorrendo e agiam seguindo os modelos e padrões vigentes na época. Os agentes das transformações eram vistos como lunáticos, sonhadores, mas foram eles que sobreviveram e nos permitiram avançar e chegar aonde chegamos. As empresas e organizações que resistirem a entrar na sociedade do conhecimento provavelmente terão o mesmo fim que os artesãos da idade média: vão desaparecer.


JP: De que forma a Sociedade do Conhecimento representa uma mudança paradigmática?

MC: A lógica da economia do conhecimento é fundamentalmente diferente da lógica da economia industrial. Com recursos escassos (como petróleo e demais matérias-primas) funciona a lógica da competição e a lei do mais forte: eu ocupo seu país e tomo o seu petróleo! Com o conhecimento essa lógica não funciona! Precisamos de uma outra, com colaboração, menos força e mais coração. As pessoas só vão colaborar umas com as outras se estiverem convencidas que isto é melhor para todos! O sequenciamento do genoma humano, que está abrindo um novo horizonte para a medicina, não foi o resultado de um trabalho isolado de algum pesquisador em seu laboratório, como era no passado (o descobrimento da vacina contra paralisia infantil FOI obra de um pesquisador isolado). Ele foi gerado pelo trabalho COLETIVO, de milhares de pesquisadores espalhados em todo o mundo. A inteligência coletiva já se mostrou muito mais eficiente e eficaz que os antigos padrões de comportamento humano. Neste novo mundo, quem conseguir mais gente colaborando para sua causa vai conseguir melhores resultados. A força adianta pouco nestes casos.


JP: Que impacto as organizações públicas e privadas sofreram com o surgimento da Sociedade do Conhecimento?

MC
: Elas estão totalmente despreparadas para esta nova realidade. Algumas dessas organizações devem, inclusive, desaparecer, como foi o caso na transição da sociedade feudal para a sociedade industrial. Nessa transição, por exemplo, desapareceram as estruturas de poder baseadas na monarquia e nos reis (onde sobreviveram, como na Inglaterra, ficaram desprovidas de poder real...) e surgiram outras, como sindicatos e partidos políticos. Agora vão acontecer coisas parecidas. Por exemplo, por que as câmaras de vereadores deveriam continuar a existir? Os representantes do povo surgiram devido à impossibilidade de se consultar todos numa praça pública. Mas, com a internet, temos uma ágora1 virtual, que permite que todos decidam se devemos construir uma escola ou pavimentar uma rua. Acho que o setor público vai se transformar radicalmente nos anos que virão!


JP: O Brasil está inserido na Sociedade do Conhecimento?

MC
: Todos estamos, queiramos ou não! Mas estamos nos preparando mal para ela! A educação, a despeito dos discursos em contrário, não é uma prioridade no Brasil. E não é por falta de dinheiro! Investimos bastante, mas investimos mal. Os professores são desvalorizados, as escolas têm um projeto pedagógico totalmente ultrapassado, baseado no volume de informação passado aos alunos e não na reflexão crítica, visando formar cidadãos autônomos, com capacidade de decidir o seu destino.


JP: Já que falamos tanto sobre ‘conhecimento’, e para não correr o risco de deixar uma impressão de senso-comum sobre o conceito, gostaria de perguntar o que ele significa de fato.

MC: Do nosso ponto de vista (do Crie), existem três tipos de conhecimento: Conhecimento explícito: como o nome diz, trata-se de uma forma de conhecimento que consigo explicitar, colocar num papel (ou site), visualizá-la (filme, foto). Muitas vezes, as pessoas confundem INFORMAÇÃO (conhecimento explícito) com conhecimento, mas conhecimento não é explicitável, ele é tácito. Conhecimento tácito: isto é conhecimento de fato. Ele emerge quando preciso, não consigo verbalizar. Eu sei fazer algo, eu tomo decisões baseado nele. Ele é fruto de minhas experiências de vida, do que li e aprendi ao longo da vida. Conhecimento implícito: nem tudo que não está explicitado é conhecimento tácito. Existe um conhecimento que ainda não foi explicitado, mas (ao contrário do tácito) pode ser! O caminho da universidade para a minha casa não está escrito em lugar nenhum, mas posso fazer um mapa, te mostrar e você vai conseguir chegar lá em casa. Esse é um conhecimento implícito! Na verdade, o conhecimento implícito é um conhecimento explícito que ainda não foi documentado, registrado.
 

1 Ágora era a praça pública na Grécia antiga onde os cidadãos decidiam os rumos da sua cidade.