Carlos Nepomuceno (UFF)
A 'Revolução 2.0' - 11/08/2009
| Jornalista e consultor em Planejamento Estratégico em Informação, com especialização no mundo Web desde 1995, Carlos Nepomuceno é doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense e pesquisa as Redes do Conhecimento. Autor do primeiro livro sobre Web 2.0 no Brasil - Conhecimento em Rede, da editora Campus -, com coautoria de Marcos Cavalcanti, Nepomuceno é também professor, ministrando a cadeira Conhecimento em Rede no MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, na Pós-graduação em Gestão Estratégica de Marketing Digital da Faculdade Hélio Alonso e na Pós-Graduação em Mídias Digitais do Senac. É ainda presidente do Instituto de Inteligência Coletiva (ICO). Em 2007 foi escolhido como um dos 50 campeões brasileiros de inovação pela Revista Info, na área de universidades e pesquisas, por coordenar o projeto ICOX, primeira ferramenta brasileira para gerenciamento de projetos de redes sociais eletrônicas, desenvolvida como software livre com apoio da Faperj, da Finep e do Infoglobo. É diretor executivo da Pontonet, primeira empresa de consultoria da Web Brasileira, fundada em 1995, que reúne na sua carteira mais de 230 projetos de consultoria estratégica em Internet. Atualmente presta consultoria na Petrobras, na Coppe/UFRJ, na Dataprev, no IBEU e na Z3M Consultoria. |
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JOSÉ PAULO DE ARAÚJO: Nos últimos anos tem-se falado muito em Web 2.0. Qual o significado desse fenômeno?
CARLOS NEPOMUCENO: Considero que a Web 2.0 é o momento de passagem na evolução da rede digital, a partir de 2004, que evidencia a massificação da articulação humana 'muitos para muitos', a distância, em função da expansão da banda larga, que, ao mesmo tempo que melhorou, reduziu o custo de acesso. Fenônemo já verificado em outros momentos da história, como na redução do custo do livro manuscrito para o impresso. É, na verdade, o momento de passagem do amadurecimento e massificação da rede digital 'muitos para muitos', iniciando o processo de mudança cultural que irá traçar uma nova forma de administrarmos as sociedades humanas, afetando todas as instituições, principalmente a forma como controlamos o poder.
JP: Mídias sociais como blogs, wikis e Twitter modificam a comunicação de alguma forma substantiva ou são apenas variações sobre temas já conhecidos?
CN: Bom, é a primeira vez que temos uma comunicação 'muitos para muitos' a distância na história humana. E isso explica parte das grandes mudanças a que assistimos. Agora há duas formas de colaboração. Há aquela que é involuntária, mediante coleta de dados na qual o usuário fornece informações apenas clicando, como, por exemplo, no Google, que monta toda a sua estratégia de vendas a partir de resultado de buscas. Ela tem uma escala maior, pois independe da vontade. E há a voluntária, quando comentamos, blogamos, wikiamos, tagueamos. Esta é resultado da outra, pois quanto mais tivermos informação involuntária filtrada, mas tempo teremos para colaborar voluntariamente. É o que sugiro como passos para a implantação da Web 2.0 nas empresas.
JP: O escritor Andrew Keen publicou uma obra na qual declara que as mídias sociais ameaçam nossa cultura e economia devido a fatores como o amadorismo autoral e a pirataria, respectivamente. Como você analisa a posição dele?
CN: Ele é radical e, às vezes, sectário na posição dele. A Internet não vai nem acabar com nem salvar o mundo. Desconfio sempre de ambas as posições. Sempre haverá perdas e ganhos em qualquer inovação em qualquer área. Temos é que que ficar atentos para procurar saber qual é realmente o jogo que estamos jogando. Há janelas de oportunidades tanto para os humanistas como para os canalhas. Por enquanto, os humanistas estão ganhando, mas acho que se prepara por aí a revanche dos canalhas, pois agora não se trata mais um jogo de Bonsucesso x São Cristovão. Virou briga de cachorro grande, pois mexe fortemente com o poder. Começamos o processo e fortes batalhas ideológicas, muito mais do que tecnológicas, virão pela frente.
JP: As mídias sociais são tão 'perigosas' quanto alguns estados totalitários querem fazer crer?
CN: Para eles, claro que são. ;-)
Mudanças nas plataformas baixas de conhecimento significam novas formas de controle da informação e, basicamente, de poder. A cada nova rodada de uma nova mídia, um conjunto de novos direitos humanos que não eram evidentes na anterior aparecem e se consolidam, como foi com o surgimento do livro, que viabilizou a Revolução Francesa e que, por sua vez, definiu a forma republicana e democrática, instituindo, por exemplo, o voto. Não seremos mais felizes, mas algumas injustiças passadas tenderão a ser eliminadas nos grandes centros e, com mais vagar, nos centros mais distantes, criando certamente novas injustiças, que precisarão de novas mídias que nos possibilitem combatê-las, em um ciclo de expansão humana, não necessariamente de evolução, que seria outro patamar de discussão.
JP: A que você atribui o sucesso do Orkut e do Twitter no Brasil?
CN: O Brasil pula do ambiente oral de massa para o ambiente de rede digital de massa. Não perdemos nossa capacidade de interação por causa do livro, como ocorreu em outros países letrados. É uma vantagem, de certa forma, mas com problemas. Gostamos muito da farra e da fofoca. E pouco da consolidação, do trabalho continuado, das relações mais profundas, do comprometimento com a realidade, das contas do final do mês. O Brasil é o país do Carnaval, da novela e do futebol, do Matrix paralelo. Enquanto eles lá em Brasília definem nossa vida, estamos aqui discutindo se foi pênalti ou não. O jeito festivo fortalece o uso dessas ferramentas, mas é importante criarmos contrapontos para que essa energia criativa do brasileiro saia do Matrix para mudar o mundo real.
JP: O escritor Saramago tem um blog cujos textos foram recentemente lançados em livro. Você acredita que o futuro do blog, uma mídia bastante amadurecida, seja a integração com mídias tradicionais?
CN: O modelo blog tem que ser separado em dois. O tecnológico e o ideológico.
No tecnológico é um sucesso completo. Hoje nenhum site, seja ele alternativo ou não, imagina sair com possibilidade de sucesso sem comentários, RSSs, etc. Ou seja, é uma tecnologia que, pelo seu largo uso, se mostra mais dinâmica do que as anteriores. É um modelo de publicação na rede imbatível, veio para dominar os portais internos e externos de todas as instituições. É uma questão de tempo.
No ideológico, vemos pessoas ou grupos de pessoas independentes publicando livremente na Web complementando a forma como nos informamos. Sempre existirão os alternativos, por opção ou situação, como havia antes com a imprensa alternativa, rádios piratas ou comunitárias.
Haverá uma relação entre as partes.
Há, assim, blogueiros da mídia e blogueiros off-mídia.
Uns serão expulsos da primeira, por falta de interesse do público. E os off-mídia participarão da grande mídia.
É preciso entender algo importante: hoje quem tem algo para dizer, se persistir no tempo, ganhará público.
O que torna, digamos, a escalada do zero para projeção para maiores públicos relativamente mais fácil, pois é possível, através dos rastros involuntários, saber quem está realmente interessando o pessoal. E seguidor chama seguidor.
Assim, é um jogo em que, a meu ver, todos têm a ganhar, desde que as regras continuem do jeito que estão: abertas e democráticas.
Temo sempre, pois considero que haverá reações fortes.
Quando o livro impresso surgiu, proporcionou a Reforma da Igreja, que, tempos depois, quando 'caiu a ficha', criou a lista dos livros proibidos e a contrarreforma.
Isso pode acontecer atualmente?
Veja que já existem leis em discussão que tentam, sem grande debate, criar controles.
Se há necessidade de regular algo, que seja um processo amplo e democrático.
E sem pressa, pois é algo muito novo.
Todo cuidado é pouco.
JP: Você entrevistou recentemente o filósofo Pierre Lévy, que declarou não ter um blog por não querer investir seu tempo em "textos efêmeros". Como você interpreta essa declaração de um acadêmico tão sintonizado com o momento atual?
CN: Não adianta. Novas mídias, como as atuais, passam por vivências.
Olhar de longe qualquer ferramenta e emitir opinião é como se fosse explicar o que é andar de bicicleta sem nunca ter andando. Soa falso. O Lévy está no Twitter e acha que blog é sinônimo de algo efêmero. O que mostra que cabeça 2.0 é um exercício diário de abertura, de diálogo, de não ter receio de experimentar. Não posso jogar pedra, pois eu já cometi, cometo e cometerei contradições similares, pois é um processo de eterna vigilância, tal como no AA: "Só por hoje, continuarei 2.0" ;-) .
Por isso gosto tanto de dar aulas, pois meus alunos adoram me mostrar o quanto estou vacilando.
Eu levo bordoada deles e me ajeito. ;-)
JP: Por que você mantém um blog chamado Rascunhos Compartilhados?
CN: O blog é a única certeza que tenho hoje. "Pois sei que vou morrer, não sei o dia..." ( como diz a música)
Fiz do blog meu HD.
Não há mais textos na minha máquina, tudo vai para o blog, o que eu estou lendo, o que quero ler, o que eu marco como site interessante, as fotos, os vídeos, tudo isso é informação para quem estuda coisas parecidas.
Não sei nunca o que pode interessar ao outro, deixo tudo aberto para que ele escolha.
Não espero nada se consolidar, pois a consolidação é um mito, criado com o livro, o radio, a tevê.
Por isso o nome: "Rascunhos compartilhados".
São rabiscos de uma cabeça que anda e se equivoca e se ajeita e anda e pula etc.
Santo blog!
Hoje, tudo é digital, tudo pode ser mudado, alterado, ajustado....é outra cultura.
Se errei, vou lá e conserto.
O principal erro atual é não compartilhar.
Quem não está nesse jogo não vê que existe hoje na rede uma luta árdua, dura, difícil pela reputação.
E você 'compra' reputação dando de graça o seu esforço mental.
E você 'vende' reputação quando é chamado para trabalhar.
"Ah, tá, fulano...sei quem é, já li, conheço, esse é o cara, etc..."
Mais ainda.
Acredito que para pessoas inquietas e que estudam, como é o meu caso, um blog é um espaço diário de exercício mental.
Minha mente antes do blog estava meio 'quarto de empregada' e agora cresceu para um 'salão de festas'.
Estou conseguindo memorizar mais, pensar melhor, ter mais interesse em várias coisas, que antes me pareciam chatas.
Não acho que é receita para ninguém, mas, para mim, tem sido uma experiência enriquecedora, pois estou sempre com minhas
últimas ideias on-line e, volta e meia, alguém entra, questiona, complementa, sugere coisas.
Duvido que os grandes pensadores (Galileu, Leonardo da Vinci, Einstein etc.) não teriam blogs hoje em dia!
Não estou me comparando com eles, mas me identifico com a inquietude deles e o blog é uma 'torneira' compatível com o que sinto.
As pessoas me perguntam:
"Mas onde você arranja tempo?"
Ué, blogar é meu trabalho!
Os clientes vêm por causa dele, pois sabem que eu estou sempre ali atualizado e 'por dentro'.
Eles me leem, me veem, me ouvem.
Quem está se guardando para publicar suas ideias em alguma coisa impressa, deveria pensar seriamente sobre o assunto.
Por fim, não acredito, que é possível dizer para o cliente que algo é importante (como ouço por aí) e levar um outro tipo de vida informacional.
Procuro, como sugeriu Gandhi, "ser a mudança que [quero] para o mundo".
JP: Qual sua previsão para o futuro das mídias sociais emergentes?
CN: Acredito que vamos entrar na era dos Robôs. A colaboração nos trará o caos e precisaremos dos robôs em diversas ações da nossa vida para nos ajudar a lidar com o volume de informação, que continuará a crescer. Será a rede digital da inteligência artificial, que só poderá se chamar de nova etapa quando se massificar. Quando? Aí, chama o babalorixá 2.0 para responder. ;-)
JP: E como a chamada Geração Y se apropriará dessas mídias?
CN: 'Já é'. Entre no quarto de um adolescente e verá como serão todas as empresas de amanhã. O Google já sacou isso. Vai num escritório do Google para ver se não parece uma escola alternativa, quase um quarto de adolescente.

